[Vida com Yoga] Ahimsa

por Natane Circe


No yoga existem vários passos para se alcançar o famoso samadhi, o último membro do yoga e o estado mais elevado da consciência que nos leva ao autoconhecimento. O primeiro membro para a busca do estado de absorção total é o Yama que tem como base cinco princípios éticos que devem ser cumpridos na nossa jornada. O primeiro deles, Ahimsa, é o que poremos em pauta hoje.

Ahimsa quer dizer “não-violência”, é o fazer, sentir, pensar e retribuir tudo que é positivo e extinguir a negatividade, crueldade, ódio, nos campos físicos e mentais de nossas vidas. É uma pratica de autocontrole e autoconsciência.





A prática de Ahimsa se inicia com o ser particular para com ele mesmo. Primeiramente , optando por não ferir seu corpo físico, respeitando, assim, seus limites. No mundo da dança, é comum nos forçarmos para atingir certas metas. Às vezes causamos efeitos negativos irreversíveis sobre o nosso corpo. Tudo por não saber ou se negar a escutar os lamentos do corpo. 



Respeitando o seu tempo praticamos Ahimsa, e teremos uma vida útil de dança bem mais prolongada. Saberemos também lidar não só contra a violência física, mas também a psicológica que causamos a nós mesmos no meio profissional e também no dia a dia. Quantas vezes nos diminuímos fisicamente por não se encaixar em padrões, por não se mover como outra bailarina se move, por não ter uma técnica tão apurada em certos movimentos e asanas. Quantas vezes a impaciência se estampa no rosto quando caímos de um equilibro, quando o shimmie não sai, ou quando a coreografia parece impossível para nós. A raiva, a impaciência, os pensamentos destrutivos nada nos melhora como bailarinas, praticantes ou ser universal. É só uma barreira na qual perdemos tempo construindo pra podermos pular depois. Sendo que ela nem estaria ali se não tirássemos tempo e energia para montá-la.



Ahimsa vai além de nós mesmos. Devemos também saber lidar com os sentimentos perante aos outros. Sou da idéia de que sensibilidade nunca é demais. Querer, fazer e emanar o bem é o primeiro passo do yoga, e deveria ser o primeiro para tudo em nossa vida. O respeito entre nosso núcleo deve ser o reflexo do que é de fora. O respeito entre as irmãs de dança deve ser escancaradamente presente. O respeito pelo corpo da sua aluna, o respeito pela arte, o respeito pela e por qualquer vida deve ser um presente constante no dia a dia.


Ahimsa é muito maior do que o ser humano é atualmente, é algo que pode ser adquirido em longo prazo, mas que a cada pratica nos leva a experiências muito mais completas e reais do que estamos vendo no nosso meio, no trabalho, na família, no Brasil e no mundo inteiro.   


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Vida com Yoga por Natane Circe

 Vida com Yoga
Natane Circe, São José do Rio Preto - SP, Brasil


Sobre a Coluna:

Conceitos e práticas sobre Yoga de forma geral, abrangendo o Yoga em suas variadas formas e perspectiva.


Sobre a Autora:


O interesse pelo Tribal Fusion foi despertado enquanto procurava a respeito sobre alguma atividade física que lhe inspirasse. Como a arte sempre fez parte de sua vida, procurou na dança um refúgio para tentar se expressar melhor. Nada pareceu ser o suficiente até que se surpreendeu em encontrar uma comunidade exótica e underground da dança em vídeos da internet. O encontro com o Estilo Tribal de Dança do Ventre foi um encontro consigo mesma, e pela primeira vez achou um objetivo que lhe fizesse continuar a caminhar.

Assim começou seus estudos de dança do ventre em 2011 com a professora Rosi Cruz. Pois devido a falta de profissionais de Tribal em sua cidade se dedicou à essa milenar arte por 4 anos, ao mesmo tempo em que estudava sua paixão em casa por meio de vídeos e DVDs, além de cursos e workshops na cidade de São Paulo e região. Estudou com grandes nomes da cena Tribal e Dança do Ventre, como: Elis Pinheiro, Aziza Mor, Rosi Cruz, Nureen Thaiar, fez parte do primeiro Curso de Formação em Tribal Fusion por Joline Andrade, cursou workshops e aulas de Rachel Brice, Paula Braz, Mari Garavelo, Kilma Farias, Julieta Maffia, Mariana Quadros  e também de Kristine Adams e Kae Montgomery onde se apaixonou pelo ATS®. Completou seu General Skills e Teacher Training em ATS®, quando Rebeca Piñeiro trouxe Carolena Nericcio-Bohlman e Megha Gavin ao Brasil em 2015.

Em 2018 e 2019 participou do Initiation e Cultivation do 8 Elements de Rachel Brice, recebendo assim seu certificado da fase 1 e 2 do programa.

Atualmente, Natane Circe trabalha como bailarina e professora de Tribal Fusion e também atua como instrutora de Hatha Vinyasa Yoga na qual é formada desde 2013 no curso reconhecido pela Aliança do Yoga. Também é praticante de Ashtanga Vinyasa Yoga e estudante da filosofia védica e outras vertentes do yoga.



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[Estilo Tribal de Ser] Segusha (Saye Gosha)

por Annamaria Marques

Olá pessoal! 

            Prontos para desvendar mais um acessório Tribal?



Este acessório tem sido usado recentemente por muitas na dança Tribal, principalmente no ATS® por seu charme exótico e porque, vocês hão de concordar, não há nada melhor do que ter muitas franjas para chacoalhar e evidenciar ainda mais o movimento dos quadris!

Saye Gosha são bordados tradicionais do Usbequistão e norte do Afeganistão feitos pelos grupos étnicos Lakai e Kungrat, tecidos com franjas, são decorações muito usadas em yurts – tenda tradicional dos pastores mongóis e outros povos - e casas na Ásia Central.



Os desenhos do bordado exibem o talento, riqueza e identidade cultural das mulheres que os fazem e incluem símbolos de suas ascendências e afiliações tribais. Podem ser compostos apenas pelo bordado no tecido ou ter agregadas franjas e franjas de tassels e além de serem usados como decoração, muitas vezes eram usados para fazer as bolsas onde os nômades carregavam toda sorte de utensílios. No fim do artigo vou deixar um link para quem se interessar em conhecer o significado dos símbolos dos bordados Lakai.





Usados para embelezar os lares, são colocados junto a outros tecidos, pendurados em paredes e sobre portas. No Ocidente, também são colocados sobre sofás ou mantidos como peças de coleção.
           
Dançarinos tribais usam esta peça em formatos e tamanhos variados, como xale nos ombros ou quadris ou como franjas para cintos dando um toque de movimento e cor aos figurinos.
https://en.m.wikipedia.org/wiki/Khongirad

http://sanat.orexca.com/2012/2012-3/the-forgotten-tribe-of-lakai-the-magical-world-of-steppe-allusions-the-history-of-lakai-embroidery/






Ritmos do Coração por Fairuza

Ritmos do Coração
Fairuza, São Paulo-SP, Brasil

Sobre a Coluna:

Nesta coluna, Fairuza falará sobre ritmos e musicalidade nas musicas para tribal Fusion e ATS®, com destaque aos árabes, dando, também, dicas de snujs e desenvolvimento de danças variadas, utilizando essas bases.


Sobre a Autora:

Fairuza, filha de árabes, possui 28 anos de carreira consolidada. Bailarina, coreógrafa e professora de dança do ventre, folclore árabe, tribal fusion e FCBD SISTERSTUDIO® lancou seu primeiro de vídeo aula  para dança do ventre em 1998. Autora junto com Yasmin Chahoud, do livro "Curso Pratico de dança do ventre" editora Madras. Lançou, também, DVDs didáticos de tribal Fusion. Seu último lançamento foi os SNUJS BY FAIRUZA, snujoes para dança do ventre, tribal e ATS®.



Entrevista: 


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Artigos

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Long Nu - Resenhando Argentina



Coordenação Argentina:

Bailarina de ATS®, Dark Fusion e Tribal Fusion. Dez anos de estudo constante em dança do ventre e tribal style. Professora certificada em ATS® e Sister Studio do FatChance Bellydance®, certificada em nivel 1 no UNMATA ITS. Integrante de: 'La Nouvelle Tribal' (Tribal Fusion, Arg) , 'Sabaku Fusion' (Alternative Fusion, EU) e Metamorphose (Dark Fusion Butoh, Arg). Diretora de 'The Monster Project' (Alternative Bellydance) e 'Naja Haje Bellydance' (ATS®, Tribal Fusion, Dark Fusion).


[Danças & Andanças] A intensa experiência do “The 8 Elements Approach to Bellydance, a Rachel Brice's Dance Program” – Parte 1

por Mimi Coelho

Neste mês em que celebro mais um ano de vida agraciada por tantas experiências maravilhosas, tenho a grande oportunidade de escrever sobre o programa que mudou minha relação com a “Dança” completamente. Tal afirmação pode até parecer um exagero diante da minha longa caminhada no universo da dança (comecei aos cinco anos com as minhas sagradas aulas de Ballet Clássico), entretanto, é com entusiasmo que inicio este relato enfatizando que o programa “The 8 Elements” de Rachel Brice foi uma vivência pessoal transformadora.


Fase 1: A Ignição

Sabe aquela velha frase que muitos reproduzem por aí, “Nada acontece por acaso”? Atrevo-me a dizer que os caminhos da vida são sinuosos por um propósito maior e ainda bem que são, pois agora compreendo que nossos papéis ou nossas contribuições a serem realizados nela não podem ser negados ou ignorados facilmente em definitivo. E qual o motivo de eu estar falando sobre isso? Como muitos que já me conhecem há algum tempo sabem, sempre tive uma conexão grande com a dança e com a arte desde muito pequena, o meu grande sonho era ser bailarina profissional em uma companhia de dança no exterior. No entanto, considerando os padrões nutridos por grande parte do meio da dança e especialmente pelos métodos pedagógicos utilizados no Brasil, os quais ainda vigoram hoje na maioria das escolas, cresci lutando contra as ideias de que meu corpo não era ideal para a dança, de que faltava talento para o estilo Ballet e de que dificilmente eu conseguiria avançar em uma carreira profissional. A velha frase reproduzida por inúmeros professores de dança em muitas academias “Você quer a dança, mas será que a dança te quer?”, retumbava em minha mente e era, então, registrada no meu corpo (e mais tarde eu ia entender sobre isso...). Tais condições me impulsionaram a trabalhar sempre um plano B para o meu futuro (tinha medo de não conseguir condições financeiras mínimas à sobrevivência, o que também é um paradigma sócio-cultural – “não se pode viver só de arte”). Acho que isso representa uma realidade compartilhada por muitos dos colegas de nossa área.

Todas estas pressões e valores exercidos em mim e por mim absorvidos resultaram em um curso de graduação em Artes Cênicas (na época não existia Dança na UFMG e, como dança é uma arte performática, escolhi aquele relacionado dentro da área de Artes) e, simultaneamente, um curso de graduação em Economia (achei que poderia me manter financeiramente assim). Entretanto, nunca deixei a dança e dancei muito na época da faculdade, não conseguia diminuir ou eliminá-la em favor de maior dedicação aos estudos. (Juro que toda esta história vai chegar ao ponto do artigo, este “background” vai facilitar o entendimento de como Rachel Brice e o The 8 elements transformaram minha forma de pensar, dançar, praticar e me ver a mim mesma. Só mais um pouquinho de calma e vocês entenderão).

[1] Para maiores detalhes sobre o programa, descrição das fases que o compõe, lista dos praticantes e professores e datas dos próximos cursos ver o site http://www.rachelbrice.com/about8elements/

Um pouquinho da dança como bailarina solista da Sesiminas Cia de Dança - Acervo Pessoal
Anos se passaram, e eu comecei a fazer outros estilos de dança pelo medo de ter que parar de dançar (pois a velha história de que a vida de bailarina é breve me assustava demais e já era um valor que eu carregava). Fiz então cursos e mais cursos dos seguintes estilos: dança do ventre, danças folclóricas e populares brasileiras, dança de salão, dança contemporânea, jazz, moderno, sapateado. Mas eu ainda não conseguia me encontrar nestas outras formas, a minha paixão pelo ballet era imensa e eu não me dedicava do mesmo modo aos outros estilos, por outro lado também não alcançava um possível “trampolim” para uma vida profissional mais segura. O final dessa história foi um mestrado e um doutorado em economia, na esperança de um trabalho que sustentasse meu amor pela arte. É claro que não deu certo!

Aqui eu chego ao ponto em que meu caminho começa a se direcionar ao encontro de Rachel Brice. Durante o doutorado em economia tive a oportunidade de realizar parte de minha pesquisa na Califórnia (EUA) e, na época em que eu estava me preparando para este período no estado berço do Tribal, fui introduzida ao trabalho dessa profissional com maior profundidade pela minha querida professora de Dança do Ventre, Mariana Bracarense (ela plantou a sementinha da curiosidade em mim e me despertou a vontade de ver de perto este novo estilo de dança). E foi o que eu fiz! No meio de uma pesquisa de campo sobre Exclusão Financeira, encontrei uma maneira de ver Rachel Brice de perto em um evento em Hollywood (na Zulu Lounge). Não consegui fazer um curso, mas pude presenciar ao vivo a energia dela ao dançar e fui tocada de tal forma que decidi ali mesmo diante daquela apresentação: Preciso aprender este estilo! Preciso me expressar através dele! Aquilo foi a primeira ignição para a vivência The 8 Elements e o que causou também o surgimento de uma “fã-estudante” (e olha que sempre achei que nunca faria aquelas ações típicas de fãs: pedir foto, autógrafo... Sempre achei tudo isso um belo de um exagero. E olhem eu ali  -vejam as fotos e vídeo abaixo-, fazendo exatamente o que nunca pensei que faria! Nossa!) Incentivada (quase que empurrada, pois sou tímida) por minha amiga Mariana Gabos (MA) que tinha me acompanhado naquela noite, pedi singelamente ao gigante segurança à porta do camarim para falar com Rachel Brice. E para a minha surpresa, ela veio me conhecer (“a fã brasileira”), com um sorriso estampado no rosto e uma atitude tão aberta e acolhedora que me deixou simplesmente abobada, completamente sem fala. Sim, um ser humano gentil, humilde e que adora pessoas! Ela logo percebeu que eu estava nervosa e conversou comigo para me deixar mais relaxada, tirou foto, assinou meu bloquinho de viagens, se apresentou para a MA e mudou minha percepção de como um profissional de dança com certa fama deve proceder (claro que a postura totalmente contrária ao que já tinha observado na maioria dos eventos nacionais de dança, não querendo parecer injusta, mas pontuando uma realidade que deve ser repensada por todos). 

Show no Zulu Lounge em Hollywood, 17 de Junho de 2011 - Acervo Pessoal 






Após o episódio de ignição marcante, devido às turbulências e às inconstâncias típicas da vida, passaram-se quase dois anos até eu realmente concretizar minha primeira viagem à Portland, para cursar a fase 1 do The 8 Elements.

Recordo-me do dia em que fiz a minha primeira inscrição vividamente. Após clicar o último passo para garantir a minha vaga, a sensação foi de que uma intensa experiência começava, como uma pequena primeira vitória rumo ao desconhecido caminho do saber: o coração disparado e cheio de expectativas pelo que ainda viria. Encorajo a todos que quiserem tentar uma vaga a persistirem e a “ficarem de olho” na virada dos segundos do relógio para a hora em que as inscrições se iniciam. As vagas são muito disputadas e acabam em uma respiração, mais precisamente em frações de segundos. Pode-se dizer que é o primeiro desafio dessa linda jornada, a vaga para o Initiation, phase I.

Neste momento abro um pequeno parêntese aqui (juro que vai valer a pena e que está relacionado ao assunto), citando meu amigo e partner querido por alguns anos na dança, Humberto Texeira[1], que em sua série de vídeos “The Grateful Artist” demonstra a importância de se agradecer àquelas pessoas que aparecem em nossas vidas, exercendo um impacto profundo e positivo na maneira como pensamos e na forma como nos vemos a nós mesmos. Um ensinamento também repassado e praticado por Rachel durante as quatro fases de seu programa, ou seja, o reconhecimento de seus mestres, daqueles que exerceram e exercem influência sobre nossa evolução enquanto artistas e pessoas (em suas palavras “it is important to honor your masters”).

"One looks back with appreciation to the brilliant teachers, but with gratitude to those who touched our human feelings. The curriculum is so much necessary raw material, but warmth is the vital element for the growing plant and for the soul of the child."[2]

-Carl Jung


Deve-se, assim, destacar a unicidade destes mestres que iluminam os caminhos dos alunos (conforme a individualidade de cada aprendiz, é claro), que influenciam positivamente a vida dessas pessoas através de seus ensinamentos, sem a preocupação de filtrar as informações a fim de evitar uma possível competição no mercado ou uma ameaça profissional (já que trabalhamos, praticamos e realizamos atividades na mesma área), que transcendem o ego e que focam nas contribuições do tipo “life changing” aos seus pupilos. Rachel Brice é uma professora assim, que se doa aos seus alunos e que se propõe a instigar, a tirar “tudo” dos mesmos (“pull everything out of your students”).

O motivo, então, de eu abrir este espaço para o agradecimento é por entender, agora, a importância da minha professora Rachel Brice para meu momento de transição. Acho que de tempos em tempos todos nós passamos por períodos (que não necessariamente são curtos em duração) como este que eu ainda estou atravessando, em que a vida nos “coloca em xeque-mate[3]” e só há uma opção a se recorrer: realizar aquelas grandes decisões que definem seu caminho de forma a resultar em sua “contribuição para o mundo”. Dessas decisões, surgem suas ações evolutivas que configurarão a transformação na sua maneira de pensar e de se ver a si mesmo. O seu foco muda, a sua dedicação aumenta, os seus limites são questionados e por você forçados e ampliados. Tal mudança significa a sua nova caminhada rumo ao conhecimento e à especialização, preparando-lhe para sua vez de difundir conhecimentos e ajudar o próximo (como uma corrente do bem). Seria mesmo um despertar, um retirar de venda dos seus olhos, ampliando seu horizonte e alterando suas ações, que refletirão positivamente em outros. Para ilustrar isso, cito uma frase de Ralph Nader que Rachel Brice nos “prega” desde o princípio e até o fim:

I start the premise that the function of the leadership is to produce more leaders and not more follower.” [4]
- Ralph Nade

Não posso afirmar que foi fácil tomar a decisão de ir à Portland fazer aulas com esta profissional de destaque. Para mim que sou uma introvertida natural, além de perfeccionista ao extremo, participar de um programa como o The 8 Elements sem nunca ter feito propriamente alguma formação prévia no estilo Tribal Fusion Bellydance  era ousado demais e, portanto, assustador. Isto sem contar a minha condição de não proficiente em inglês, o que configura de certa forma como uma atitude “cara de pau” (pois é um dos pré-requisitos), talvez uma das únicas que já fiz em toda minha vida. O fator de ignição, entretanto, foi mais forte e a vontade de aprender era gigante.

A experiência pela qual o programa te conduz é completamente diferente de tudo que se possa imaginar a princípio, quero dizer de um ponto de vista externo. Já de início notei uma grande diferença diante do que se vê no ramo da dança normalmente (em especial no Brasil), no que se refere ao comprometimento do aluno com o curso, com a rotina diária de aula (e aqui há uma semelhança com a cultura do Ballet Clássico). Há a introdução de um novo hábito do estudante de dança: chegar ao estúdio 30 minutos antes do início da aula com os fins de troca de roupas, de socialização e de autoconcentração para a aula. Isso é colocado como responsabilidade do aluno, que pode ou não optar por seguir este novo hábito.

As regras que são passadas e assinadas em acordo por todos participantes podem parecer um tanto incômodas e autoritárias demais para alguns. Entretanto, enfatizo que o aprendizado sobre a responsabilidade e a assunção das consequências de suas decisões, assim como sobre a disciplina e o foco é um dos muitos pontos altos desse programa. Rachel Brice e toda equipe 8 Elements projetaram a melhor forma para garantir que a experiência de cada participante seja vivenciada em completude, mesmo que seja necessário ensinar sobre regras e atuar segundo elas frente às ações dos próprios alunos que as contrariam. Literalmente é saber que os alunos pagaram uma quantia considerável em dinheiro para estar ali e por isso não permitem que os mesmos “desperdicem” seu próprio investimento monetário. Mais adiante, com o decorrer das fases, os estudantes entendem que estes são também aprendizados consistentes a se abraçar, enquanto profissional da dança. Sim, é difícil vencer como em outras carreiras, mas é possível se houver organização e foco.

Não é a toa que a fase 1 se chama Initiation (Iniciação). Nela há a introdução de todos os 8 Elementos a serem estudados e como serão abordados: Técnica, Musicalidade, Vocabulário, Improvisação, Coreografia/Composição, Prática, Adornos, Performance. Apesar de saber que há participantes de diversos níveis, desde aqueles que possuem um ano de dança (pré-requisito) até os mais experientes dançarinos, Rachel Brice nos pede para assumirmos uma cabeça de um completo iniciante a fim de que nossas mentes sejam libertas de qualquer “pré-conceito” e ou “pré-julgamento”, permitindo-nos uma experiência completa e com apreço pelo fortalecimento dos fundamentos. Nós adotamos o espírito e a postura de quem está principiando o caminho da dança e ela “faz de conta” que todos nunca dançaram antes, começando tudo do zero. Dessa forma, aqueles que experimentam esse “começar de um processo”, podem decidir se retornarão para o seu cultivo e, então, para o seu ponto clímax, seguido do estudo sobre o “transmitir de conhecimentos”. Dentre alguns fortes motivos de se realizar tal fase introdutória, pelas palavras próprias de quem idealizou e concebeu este programa, destaca-se o fato de que “O 8 elements não é um programa para todos os profissionais que buscam este estilo de dança, Tribal Fusion Bellydance”. E tal afirmação não é uma forma de descriminação ou arrogância, mas retrata fielmente a singularidade da metodologia e do conteúdo do mesmo, que não se limita somente à técnica, ao como se faz isso ou aquilo. O programa te conduz de forma intensa à descoberta de seu próprio artista e de sua própria voz. Citando a página http://www.rachelbrice.com/about8elements/ :

Os participantes deste intensivo sairão com uma caixa de ferramentas cheia de métodos e conceitos para melhorar técnica, estimular criatividade, e começar a criar danças eficazes e dinâmicas, sejam improvisadas ou coreografadas, solo ou com outros dançarinos.” (8 Elements team, tradução por Mimi Coelho)[1]

Nesta fase 1, os alunos são expostos de maneira ainda tímida às diversas e contraditórias emoções que compõe a construção de um artista. Introduzem-se novos padrões que brigam com alguns paradigmas antigos sobre habilidades e sucesso. Esclarece-se que há a existência de predisposições naturais de algumas pessoas para determinadas técnicas, mas que talento se constrói através do que pode ser chamado por “prática profunda”. É um turbilhão de primeiras informações sobre um vasto universo, o início da experimentação do “ampliar de seus próprios limites”, a quebra de velhos valores que permeam a nossa arte e por isso pode ser doloroso e ao mesmo tempo gratificante. Pra mim foi assim, o início de um grande aprendizado, de um processo de transformação. Chorei, desacreditei, acreditei novamente, enlouqueci e me doei.

Foram dias intensos e a experiência tribalística em terras estrangeiras estava cada vez mais real e transformadora. Os vínculos aos poucos iam se formando, as identidades culturais se entrelaçando e o rito de mulheres unidas em prol de uma mudança de concepção artística passo a passo ia se fortalecendo. Éramos mulheres fragmentadas e cheias de dúvidas que assim como as estações iam se descobrindo e florescendo. A expectativa nessa altura do campeonato era que ao final de tudo literalmente desabrochássemos. Liberássemos os medos, os julgamentos, as angústias de um mundo cênico que muitas vezes pode ser tão cruel e apenas existíssemos na dança como seres de poder e vontade que éramos e somos. Não havia espaço para timidez, receios ou inconstâncias. Pagamos por um aprendizado como nunca se viu igual no mundo e deveríamos corresponder da forma correta: com dedicação e envolvimento.

O universo das mulheres que dançam com Rachel Brice, naquele setembro de 2013, estava formando a sua própria órbita. Uma nova turma, várias novas personalidades, um mesmo objetivo. Transcender. A ignição havia sido dada. A chama interna de cada uma de nós estava flamejante e sendo alimentada diariamente por doses nada homeopáticas de conhecimento. Compreendemos ali o que estava por vir e como deveríamos nos comportar como bailarinas na próxima fase que se iniciaria em breve. Uma entrega “meia-boca” não tinha espaço naquela sala. Ou você era uma lagarta em busca da ascensão por inteiro, ou você desistia do sonho e retornava apática ao seu casulo. Para mim não havia questionamentos: já sentia nas costas o peso das ainda minúsculas asas. Só me faltava voar. Deixei Portland com aquela sensação de quem acabou de degustar a última gota do seu sorvete favorito. Mas, o carrinho passaria de novo, em alguns meses.



[1] Existe uma entrevista maravilhosa e super recente realizada por LaDibi, em que Rachel Brice  descreve o programa e algumas de suas próprias impressões. Vale a pena conferir, tempo 16’35” do vídeo https://www.youtube.com/watch?v=j2h9aEbFgPM.


The 8 Elements Initiation, Phase 1 -Acervo Pessoal





[1] Humberto Teixeira é bailarino, coreógrafo e professor de dança, hoje residente em New Jersey .  Seus projetos em vídeo podem ser visualizados em https://www.instagram.com/humbertoloopmaster/ e são uma fonte preciosa de vários ensinamentos, muitos deles praticados e repassados por Rachel Brice em seu programa. Um fato curioso a se ressaltar é que apesar de conhecer o Humberto há anos, somente após cursar o The 8 Elements -  e assimilar novas formas de pensar a dança, de agir como aluna,  professora de dança, bailarina e ser humano -  visualizei seus vídeos que tratam de questões que estudei em Portland. Fantástica coincidência e afirmação de tudo que acumulei em meu processo de transformação.

[2] “Um olha para trás com apreço aos professores brilhantes, mas com gratidão àqueles que tocaram os nossos sentimentos humanos. O currículo é tanto matéria-prima necessária, mas o calor é o elemento vital para o crescimento da planta e para a alma da criança.” (tradução por Mimi Coelho).

[3] No sentido figurado, xeque mate indica o momento em que alguém está em uma situação constrangedora, quando recebe um ultimato e deve tomar uma decisão para seguir um caminho ou perder alguma coisa (dicionário etimológico). 

[4] “Eu começo com a premissa de que a função da liderança é produzir mais líderes e não mais seguidores” – Ralph Nader (tradução por Mimi Coelho)


[Retalhos de uma História] Naima Akef

por Ju Najlah

Algumas informações disponíveis a respeito da vida de Naima Akef são muito controversas. Em função disso não farei considerações a respeito das datas de nascimento e falecimento e possíveis idades. Abordarei aqui somente temas comuns e de valia para o estudo da dança.

Nasceu em Tanta, no Egito. Sua família era circense e possuía o Circo Akef. Eles viajavam muito fazendo turnês especialmente na Rússia. Por conta disso Naima começou sua carreira muito cedo. Se envolvia em todos os tipos de profissões, jogos acrobáticos e arte circense e se tornou a estrela mais talentosa do circo. Seu pai percebeu seus dons, incentivou e reconheceu seus talentos.

Chegou a cantar e dançar, por algum tempo, no famoso Cabaret de Badia Masabni. Seu talento como cantora e dançarina logo fizeram dela uma das maiores e principais estrelas de lá, mas não permaneceu por muito tempo.

Em 1957, foi nomeada melhor dançarina de folclore do Youth Festival, realizado em Moscou. No Teatro Bolshoi, havia uma foto em sua homenagem.



Naima foi descoberta primeiro pelo diretor Abbas Fawzy que lhe apresentou seu irmão Hessein Fawzy. Ele percebeu o talento dela e lhe deu papel principal pela primeira vez em que Naima aparecia em um filme. Fawzy dirigiu mais de 15 filmes para Naima Akef. O diretor não pôde resistir a seus charmes e a relação de trabalho tornou-se uma relação amorosa. Os dois casaram-se. Naima continuou a florescer e logo se tornou a mais famosa atriz do cinema egípcio. Na’ema Fawzi ingressou em um dos primeiros grupos folclóricos profissionais no país, Lail Ya ayn Group, e contribui muito para o seu sucesso.


Ela foi muito bem sucedida como atriz, era consciente do seu peso, sua forma física, não poupava esforços nos ensaio. Dotada de grande técnica e estilo, suas coreografias encantaram o cinema egípcio com sua arte de canto, atuação e dança. Atuou em aproximadamente 30 filmes. Sua expressiva dança, teve origem nas atuações acrobáticas sobre cavalos. Frequentemente criava suas coreografias mas ficou muito famosa por ser disciplinada e obediente aos seus treinadores.

Seu maior filme talvez tenha sido YaTamr Henna (também o nome de uma música popular), dirigido por seu marido, no qual desempenhou o papel de uma jovem dançarina ghawazee. Dançou também um sapateado em Ya Halawaat Al Hob (1952). Seu primeiro filme em cores foi Amir El Dahaa (1964).



Após ter se separado de Hessein, ela se casou com seu contador e com ele teve um filho que começou mais tarde a trabalhar com música.

Sua graciosa performance nunca era vulgar. Naima cantou, dançou e atuou em diversos filmes, principalmente filmes em preto e branco. A grande Nagwa Fouad denominou Naima Akef sua grande fonte de inspiração. Nagwa usualmente dizia:  “Naima se movimenta como mágica”.



A dança de Naima Akef explora oitos seguidos de giros ou redondos grandes, chutinhos, arabesques, pernas altas, cambres trabalho de braços, expressão e grande utilização de espaços com marcações simples porém bonitas de quadril. Sua musicalidade e interpretação dramática são imortais.

Naima faleceu acometida por um câncer. Alguns datam de 23 de abril de 1966, outros de 1996.



Fontes:

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