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[Venenum Saltationes] Binamorph

 por Hölle Carogne 

Fotografia: Dani Berwanger

93!

"Tejida mariposa, vestidura

colgada de los árboles,

ahogada en cielo, derivada

entre rachas y lluvias, sola, sola, compacta,

con ropa y cabellera hecha jirones

y centros corroídos por el aire." 

(Pablo Neruda)

Fotografia: Dani Berwanger

Buenas, queridos leitores da Venenum... 
Hoje compartilho com vocês um pouco sobre a história da BINAMORPH.

Binamorph, além de outras coisas, é um projeto artístico que envolve três tipos de Dark Art: pintura (Yuri Seima), fotografia (Dani Berwanger) e performance (Hölle Carogne). Entretanto, é importante dizer que em quase três anos de projeto, tivemos diversos “padrinhos”, digamos assim... Artistas que acabaram, também, contribuindo para o fazer da obra como um todo. Dentre eles: Martha Buzin, Alessandro Roos, Júnior Larethian e Carolina Disegna. 


Fotografia: Martha Buzin

Bom, vamos lá. Primeiramente, gostaria de dizer que não sou o tipo de pessoa que acha que a arte deve ser explicada. Bem pelo contrário. Creio que a arte (desde o momento que nasce) deixa de ser a concretização da ideia do artista. Ela pode até ser criada por um objetivo, mas existe por si só, depois de finalizada. Ela transcende a ideia e o artista. Ela ganha vida própria e se conecta com cada espectador de forma diferente. Da forma necessária. Em contrapartida, eu gosto de escrever. Sou uma contadora de histórias. Escrevo a minha vida no papel e no palco, com letra de niño (como disse a Saba) e com a carne do corpo. Desta forma, me afirmo cheia de contradições. Cada dia mais. Por isso, compartilho aqui a história desse projeto e conto um pouco do processo de criação em relação à minha parte. Os detalhes que envolvem a parte magicka ficarão em off, assim como os significados mais pessoais. Assim estarei respeitando a identidade das obras e cada um seguirá encontrando a sua própria interpretação e se conectando com o que for preciso.
 

 

Fotografia: Carolina Disegna | Em ordem de aparição: Hölle Carogne, Dani Berwanger e Yuri Seima

Então...

Em meados de dezembro de 2016, o artista curitibano Yuri Seima convidou-me para fazer parte de um projeto. A ideia era que eu fizesse algumas fotos que ele usaria como ponto de partida para as pinturas. Eu aceitei, com muito prazer. Mas confesso que não havia muita empolgação ou excitação, porque eu estava bem cansada e envolvida com um milhão de outros projetos. A inspiração não vinha, não vinha... Só o cansaço, a rotina, a inadequação e uns pequenos detalhes líquidos da vida no submundo...

Conversamos sobre isso e combinamos que quando fosse a hora, isso se realizaria. 

Ainda em dezembro aconteceu uma situação interessante, que mais tarde se encaixaria na história. Vou contá-la aqui para respeitar a ordem cronológica. 

...Um dia eu entrei em uma loja, quase instintivamente. Eu quase nunca entro em lojas, principalmente nessas de departamento. Mas entrei. Caminhei dois metros e vi um vestido branco, meio rendado, caríssimo. Pensei: "Nossa, ficaria lindo em uma performance!" Dei as costas e saí da loja. 

Passaram-se alguns meses e em março ou abril de 2017 eu tive um sonho: Sonhei que tinha sido convidada para dançar e pensava na música: "Eu vou dançar a Zutzig do Wim Mertens.” Eu ouvia a música no sonho. Aí eu pensava: "Ficaria lindo usar aquele vestido que vi uma vez." E, no sonho, eu ia até a loja e não achava o vestido. Ficava meio perdida, desesperada e o sonho acabava.

Ao mesmo tempo, durante dias seguidos, eu pensava muito na Binamorph (obra do Yuri que já existia e que eu me identifiquei bastante). Lembro que fiz uma confusão com outra palavra que envolvia "moth" e fiquei pensando muito no conceito das mariposas e o que elas carregam consigo e isso se encaixava perfeitamente no momento atual da minha vida. Alguns dias depois, recebi um convite do Espaço Cultural Crisálidas, para dançar no Sarau que ele estava promovendo. (Sim! "Crisálidas!"). Na hora pensei na coreografia do sonho.

Entrei em contato com o Yuri, perguntando o que era a Binamorph. Queria tentar entender a confusão que eu estava fazendo na minha cabeça. Ele me explicou algumas coisas sobre esta força e sim, chegamos a conclusão que, de alguma forma, havia relação com a ideia das mariposas. Então, ele me autorizou a levar esse "conceito" para o palco e damos início ao projeto que recebeu o mesmo nome da “entidade” Binamorph.

  

Binamorph I ~ Arte de Yuri Seima 

A minha ideia, para a performance, era trabalhar o conceito da simbologia das mariposas, porém, com a força da Binamorph (vamos pensar em um arquétipo) direcionando tudo. Não era a Diedri, nem a Hölle. Através do meu corpo, Binamorph se manifestou e pude sentí-la, viva, em mim. Mariposas são seres noturnos, que como as borboletas, passam pela metamorfose. Simbolizam a morte, porém, a morte transformadora! A ideia da morte como transmutação da lagarta para o ser alado. Elas são atraídas pela luz (fototaxia), mas ao se aproximarem dela, morrem. A luz simboliza várias coisas, dentre elas o amor ou o divino. Eu queria trabalhar tudo isso... Eu queria gritar! 

Decidi que passaria na tal loja, a procura do tal vestido. Encontrei. Peça única, do meu tamanho, baratíssima. Coincidência ou não, era a roupa da mariposa!


O tule que envolve a cabeça da Binamorph simboliza o casulo.


O pano que sai da boca simboliza as asas da mariposa. A luz do candelabro simboliza o que a atrai. O pano preto que cobre seu corpo simboliza a morte.
 

Havia a luz. Havia a atração. Havia a luta contra essa atração. Havia a morte! 

Nada foi coreografado. Como na maioria das vezes, criei o conceito, alguns detalhes de enredo, a simbologia e a forma que ela se apresentaria para as pessoas, mas a movimentação foi instintiva e fluiu na hora. 

Aqui você confere as primeiras aparições da Binamorph, no espaço Crisálidas, no palco do Dark Cabaret e dentro de um casulo, no teatro Renascença:

 

  

Vocês podem perceber que são cenas muito diferentes, em tempo, edição de música, espaço. Entretanto todas vividas com carne e sangue. E todas infinitamente potentes no quesito possessão. 

Bom, voltemos ao projeto...

Eu convidei a Daniela Berwanger para fazer as fotos. Tanto as do palco, quanto as que viriam depois.

Além das apresentações, fizemos dois ensaios fotográficos, com o intuito de ter material para o Yuri poder trabalhar. 

Dani foi a pessoa que a Binamorph escolheu. Não foi escolha minha. Eu confesso que pensei que seria difícil, porque não nos conhecíamos tão bem no início do projeto. Entretanto, foi a conexão mais interessante que já tive em termos de fotografia. Em alguns momentos foi nítida a presença dela (Da Binamorph). Graças à Binamorph, eu ganhei uma amiga e parceira para o resto da vida (me arrepio). 

Basicamente, eu (inspirada pela obra original do Yuri), performava. A Dani fotografava a performance (no palco ou no formato ensaio fotográfico). E, finalmente, o Yuri pintava novas forças binamorphicas, através do resultado corpóreo manifestado.

Inspirei-me na arte do Yuri. E fusionando-a com alguns sentimentos que insistiam em me sufocar, trouxe a Binamorph para a carne do corpo, e ela, de certa forma, ganhou vida entre nós, humanos.

Coisa de louco, né?

Este é o primeiro resultado da alquimia entre artistas:

 

 Binamorph II
Fotografia: Dani Berwanger | Pintura: Yuri Seima

A serpente, a forma como a textura do corpo nada tem de humano, o vácuo ao qual ela pertence, o corpo se esvaindo, como se fumaça ou líquido indo de encontro à algo, cada detalhe, cada sensação ao olhar essa pintura me faz estremecer... É tudo tão real.

E seguiu-se a alquimia... 


Binamorph III
Fotografia: Dani Berwanger | Pintura: Yuri Seima

 


Binamorph IV
Fotografia: Dani Berwanger | Pintura: Yuri Seima

Quando vi essa arte, tive uma sensação tão peculiar... Não era boa. Não era ruim. Era real. Tudo que essa obra expressa eu sinto na pele, nos nervos, nas articulações, nos tendões. Dá vontade de rasgar a carne à unha, para libertar esta prisioneira. Eu sou casulo, sou vácuo, sou raiz, sou galhos, sou mariposas e borboletas tanto quanto sou lagarta. Sou o vento que existe entre cada asinha que bate. Sendo vida, sou morte. Sendo morte, sou vida. Sou BINAMORPH!

Binamorph V
Pintura: Yuri Seima

 

Binamorph VI
Fotografia: Dani Berwanger | Pintura: Yuri Seima

Em 05/11/2017, Yuri escreveu: “De longe é o projeto mais intenso em que eu já trabalhei até hoje. A minha autocrítica sempre foi muito severa desde a infância, quando eu rasgava meus desenhos por não atingir os resultados que eu esperava, mas do final do ano passado pra cá tenho me entregado para esse processo da Binamorph, literalmente de corpo e alma, onde tenho exercitado minha paciência, disciplina, amor/vontade e pela primeira vez estou satisfeito com os resultados, sentindo que estou no caminho certo e tocando coisas reais! Não tenho palavras para descrever a maior parte do que nós artistas envolvidos estamos vivenciando, pois o ponto principal do trabalho é espiritual e muito íntimo. Obrigado, Hölle e Dani, tenho aprendido muito sobre a minha própria arte através de vocês.” 


Binamorph VII
Pintura: Yuri Seima

 


Binamorph VIII
Pintura: Yuri Seima

 

O final da primeira performance era uma cena onde cubro meu corpo com um pano preto. Eu findo.

 

Fotografia: Dani Berwanger
 

E eu senti como se estivesse embaixo daquele pano. Eu senti como se a minha existência não pertencesse à alguma superfície. Eu estava à margem. Eu estava encaixotada. Afogada. Enterrada. Aninhada em alguma raiz de árvore.

Eu estava embaixo daquele pano. E Binamorph rondava. Ela queria ensinar algo.

Foi quando eu senti inspiração para criar a segunda performance: Binamorph ~ Morituri. O que havia embaixo do pano? Como enxergar na escuridão? O que tem depois da morte?

Eu não sonhei com a performance em si, desta vez. Mas lembro de ter sonhado que eu morria; um amigo tentava me ajudar, mas não era possível, eu estava morrendo mesmo e eu ficava sussurrando repetidamente: "...Atravessou a fechadura com o que pôde... Atravessou a fechadura com o que pôde... Atravessou a fechadura com o que pôde..."  Essa era uma frase do Glaucus Noia, de um texto sobre uma mariposa, que de tanto eu ter lido, deve ter ficado alojada na minha cabeça.

A questão é que esse sonho aconteceu muito tempo antes da inspiração e só depois eu fiz a conexão, pois eu estava habitando a Morte, vestida com chaves e fechaduras.

A magia é diáfana... (me arrepio).

Eu sabia exatamente o que fazer para atravessar a porta...

Foi no palco do Dark Cabaret que Binamorph ~ Morituri se manifestou:

Aqui você confere o vídeo:

E aqui a pintura do Yuri que, desta vez, utilizou-se de um registro da Carolina Disegna (dona do local onde ocorreu a performance): 

Binamorph IX
Fotografia: Carolina Disegna | Pintura: Yuri Seima

 

Em 01/07/2019, Yuri escreveu: “Binamorph IX - Nona e última pintura que completa o conjunto de obras que vai para o evento, em Porto Alegre. Foi a obra que mais demorei e tive trabalho para fazer. Durante o processo tirei uma carta de Tarot, para entender a essência da obra, que para mim ainda não era nada claro... Saiu o 9 de copas (tarot de Thoth) que, coincidência ou não, a carta nove fez relação com a pintura número nove, e para quem conhece o baralho também sabe que a carta tem as mesmas cores que essa pintura (que não foram de minha escolha, reproduzi as cores da foto de referência, registro da performance da Hölle Carogne). Relacionando as obras com as Sephiroth da Kabbalah, essa representa Yesod (lua), que mais uma vez, coincidentemente ou não, tem as cores correspondentes da obra. O eclipse representa a lua de Yesod sendo iluminada pela beleza de Typheret, as duas sephiroth alinhadas ao meio da árvore da vida. A exposição das obras juntamente com a última performance e registros irão representar Malkulth que é a manifestação física de todo o processo e quando o ciclo se encerra. XIII, 93,93/93!”

Fotografia: Martha Buzin

É estranho, mas parece que ela nos direcionou a criar tudo isso, exatamente da forma que foi criado.

 O tempo passou e estávamos esquecidos dela, quando ela, novamente, apareceu nos meus sonhos, contando o que eu deveria fazer. Eu sabia tudo sobre como seria o figurino, qual a música que eu deveria escolher. Ela pintou cada detalhe sobre uma terceira e última performance: Binamorph ~ Magenta. Lembro que no sonho eu refletia: “Mas é óbvio! Como posso ter trabalhado albedo e nigredo e não trabalhar rubedo?” Hahahahaha. A magia é diáfana!

 

Fotografia: Martha Buzin
 

"Quando já não havia outra tinta no mundo

o poeta usou do seu próprio sangue.

Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.

Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.

Como o sangue: sem voz nem nascente." 

(Mia Couto)


Bom, lá estávamos nós, organizando uma exposição para ela. Evento esse que seria também uma despedida. Estávamos todos muito ansiosos e felizes por contemplar um grande desfecho para este projeto que tanto nos nutriu e fortaleceu.

Na exposição, tivemos fotografias da Dani e todas as 9 pinturas do Yuri ao acesso do público e eu... Bom, eu pude uma última vez, encarnar esta, que ainda me acompanha e para quem direciono todas as minhas preces. 


Mais uma vez, ao buscar a luz, morri:


Mais uma vez, ao morrer, encontrei a luz que tanto procurava:


E, finalmente, comecei a entender o que era iluminação:


Aqui você confere o vídeo completo com todos os momentos da exposição, pelos olhos do Júnior Larethian:

 

 

Algumas curiosidades: 

  1. Uns dias depois da expo, fomos, Yuri e eu, em um evento xamânico, e além de comemorarmos o aniversário dele, nós queimamos as máscaras usadas nas performances. Foi triste e belo.

  2. Binamorph também inspirou Yuri a compor músicas, juntamente com sua banda Hokmoth (olha a mariposa aí, minha gente). A banda é formada por Tati Klingel (vocal), Yuri Seima (guitarra), Mario Kmiecik (bateria) e Lucas Rafalski (baixo).

 

Aqui você confere a música “Binamorph Part I ~ Albedo”

 

E aqui a “Binamorph Part II ~ Eros and Violence”

Arte do EP Neophytvs, por Yuri Seima

 

 

BINAMORPH pt-II - Eros and Violence

 In fear

my guts, flesh.. feelings

devoure me as you spread these wings

 

pure.. naked.. worm.. immaculate

touch me.. teach me.. kill me!

 

angel! i know that your bless is destruction

force me to die ... let me breathe!

 

who am i?!.. what am i?!.. as a storm

i see you, mother.. give me back!

illusions, restrictions, redemption..

Binamorph.. my transformation!

 

Fotografia: Martha Buzin


Bom, chegamos ao fim desta história...

Binamorph ensinou. Mas sua mão é pesada. Mão de mãe. Seus ensinamentos são dolorosos. Ela veio para devastar. Varrer tudo... Carne, músculos, vísceras, sentimentos, água. Vai roer até os ossos e então, algo novo surgirá.

Sua lição é como a de Saturno... Lição de maléficos, cuja artimanha está em segurar o grande espelho da vida. Eu não sei exatamente o que é a Binamorph, ou o que ela quer. Mas eu a sinto. Eu a vejo. Ela está em mim. Eu espero poder ressurgir do fundo do mundo, me reerguer de debaixo do pano. Eu estou no processo da larva, agora. E eu espero renascer, amanhã. Transformada. Transmutada em vida, em movimento, em vôos e bater de asas. Eu espero voar viva, eufórica. E se houver uma luz, morrer de novo. Transformar-me sempre. Trocar de pele quantas vezes forem necessárias. Estar viva, para poder morrer. Estar morta, para poder viver.

 Escrevendo isso, lembrei da Cecília, quando diz:

"Renova-te.

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo."

 

Obrigada, Yuri! Obrigada, Dani!

Obrigada à todos que, direta ou indiretamente, fizeram parte deste processo!

Parte inferior do forPor fim, obrigada Binamorph, quem quer que você seja, por me mostrar uma face de mim mesma que talvez não conhecesse: mais forte, mais corajosa, mais compreensiva com a vida cíclica e um pouco mais apaixonada pela morte! 

Obrigada a todos que leram até aqui!

Até a próxima!

93,93/93

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Venenum Saltationes

Hölle Carogne (Porto Alegre-RS) é  a alma por detrás do humano, do rígido. É curiosa, entusiasta e selvagem. Uma admiradora da arte, da dança, da literatura e da música.O "esquisito" a seduz. Seus poemas e seus movimentos estão impregnados de ideologias, de crenças. Compassos pouco convencionais, cheios de misticismo, de oposição, de agressividade.Ocultismo, caos e luxúria sendo mesclados às suas criações e retratados de forma crua, orgânica, uterina.

[Venenum Saltationes] De Onde Vem A Inspiração?

 por Hölle Carogne

Apollo and the Muses on Parnassus - Samuel Woodforde  

93!

“Quem sabe de onde vem a inspiração? Talvez surja do desespero. Talvez venha das casualidades do Universo, da bondade das musas.”
Amy Tan

Inspiração, substantivo feminino.

Do latim “inspiratio” e “inspirare” (soprar em).

- Ato ou efeito de inspirar (-se).

- Entrada de ar nos pulmões.

- Conselho, sugestão, influência.

- Criatividade, entusiasmo criador.

- Pessoa ou coisa que inspira e estimula a capacidade criativa.

- Ideia súbita e espontânea, geralmente brilhante e/ou oportuna; iluminação, lampejo.

 

Hesiode et la Muse - Gustave Moreau 

De acordo com os gregos, existiam divindades femininas relacionadas às artes e às ciências: as Musas (os romanos chamavam-nas Camenae). Filhas de Zeus e Mnemósine, as musas tinham funções no universo das artes e dos símbolos. Eram invocadas pelos poetas para trazer inspirações. Eram nove: Erato (poesia lírica), Euterpe (música), Calíope (poesia épica), Clio (história), Melpômene (tragédia), Polimnia (canto solene), Terpsícore (dança), Tália (comédia) e Urânia (astronomia). O templo das musas era o Museion, termo que deu origem à palavra museu nas diversas línguas indo-europeias como local de cultivo e preservação das artes e ciências.

Em teologia, a Inspiração estaria atrelada apenas aos humanos intimamente ligados à Deus, que receberiam supervisão e aprovação do Espírito Santo, fazendo com que a obra criada fosse, de alguma forma, uma revelação divina. Seria o caso das escrituras sagradas, por exemplo.

 

O evangelista Mateus inspirado por um anjo - Rembrandt 

Desde os primórdios da humanidade, o homem sentiu a necessidade de explicar as coisas. Como se nomeando, dividindo ou criando por meio de observação, trouxesse luz às questões coletivas obscuras, impossíveis de responder por meios científicos. Dessa forma, a Inspiração seria o sopro de Deus no coração do homem de fé ou um presente dos deuses, através de suas filhas: as Musas.

Mas, saiamos um pouco da esfera do misticismo e tentemos entender melhor este conceito, tirando-o das mãos de deus/deuses. Tentemos refletir sobre suas possíveis origens (usando diversas perspectivas) e descobrir o que alguns estudiosos têm falado sobre isso.

Nosso intuito não é achar respostas (uma vez que não existem) e sim, fazer mais e mais perguntas.

Lembrando que a ideia é sair apenas um pouco da esfera do misticismo, visto que este é um assunto impossível, sem verdades absolutas, cheio de névoa e superstição. Além disso, estamos na Venenum. Se não houvesse aquela pitada deliciosa do oculto e dos mistérios, não estaríamos aqui, não é mesmo?

Para ajudar no meu raciocínio e pesquisa, criei alguns itens, que seguiremos como uma luz no fim do túnel.

São eles: tempo, manifestação, imobilidade do eixo, divisões temporais, inconsciente pessoal e coletivo, luz astral, entre outros.

Comecemos então a tarefa impossível:


Estaria a Inspiração atrelada ao Tempo e às divisões temporais feitas pelo homem?

Para Baudelaire, o tempo é “o inimigo vigilante e funesto, o obscuro inimigo que nos corrói o coração”. (Spleen e Ideal).

 

O Tempo e a Fortuna, retratados por Giovanni Battista Bonacina 

Em todas as culturas elevadas encontra-se uma simbologia do tempo. O tempo era um conceito tão importante e tão fundamental que era/estava personificado em entidades. No Egito: o deus ajoelhado Hah ou Heh. Na Pérsia antiga: Zervan. Na índia: Kali, a destruidora. Na Grécia: Chronus (ou Kronos) e, também, Kairos, o deus do momento oportuno. Na astrologia helenística, os planetas e outros seres divino-demoníacos eram adorados como divindades do tempo.

O tempo é frequentemente simbolizado pela Roda, com seu movimento giratório. Também associado à Rosácea, pelos doze signos do zodíaco (que descrevem o ciclo da vida) e, geralmente, por todas as figuras circulares. O relógio corre atrás dele mesmo, assim como o Ouroboros que morde a própria cauda, simbolizando o ciclo eterno da vida no cosmos.

 

Ouroboros - Autoria desconhecida 

O centro do círculo é considerado como o aspecto imóvel do ser, o eixo que torna possível o movimento dos seres, embora oponha-se à este como a eternidade opõe-se ao tempo. Todo movimento toma forma circular, do momento em que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim, e cai sob a possibilidade de uma medida, que não é outra senão a do tempo.

O que explica a definição agostiniana: “imagem móvel da imóvel eternidade”.

E nos remete aos pensamentos de Platão: “o tempo (chrónos) é a imagem móvel da eternidade (aión), movida segundo o número”.

Partindo do dualismo entre mundo inteligível e mundo sensível, Platão concebe o tempo como uma aparência mutável e perecível de uma essência imutável e imperecível – eternidade. Enquanto que o tempo é a esfera tangível móbil, a eternidade é a esfera intangível imóbil. Sendo uma ordem mensurável em movimento, o tempo está em permanente alteridade. O seu domínio é caracterizado pelo devir contínuo dos fenômenos em ininterrupta mudança.

Posto que o tempo (chrónos) é uma imagem, ele não passa de uma imitação (mímesis) da eternidade (aión). Ou seja, o tempo é uma cópia imperfeita de um modelo perfeito – eternidade.

Vemos aqui a ideia do conceito ocultista da manifestação, onde o “pequeno mundo” humano e o “grande mundo” do universo se encontram em intercâmbio (micro-macrocosmo). O visível seria a manifestação do invisível: “Assim na terra como no céu” (como pregam os cristãos) ou “O que está em cima é como o que está embaixo” (segundo a máxima hermética).

 

A Persistência da Memória – Salvador Dalí 

Nosso desejo de medir o tempo provavelmente começou quando percebemos que o Sol se movia pelo céu e desaparecia abaixo do horizonte, trazendo com ele a escuridão. Se o homem pudesse medir o tempo, teria algum alívio do medo de que o Sol jamais nascesse de novo. Fazendo isso, ele podia ter mais controle sobre sua vida e planejá-la de forma mais cuidadosa.

A Lua foi o primeiro relógio e nossos ancestrais notaram seus movimentos e reconheceram a chegada do inverno, da primavera, e outras posições importantes para a caça e, mais tarde, para o plantio.

O tempo, como o percebemos, está sempre dividido em períodos, desde as horas, dias, semanas, meses, fases da lua, ano, década, século, etc. O homem necessitou organizar o tempo para observar a natureza, a evolução da Terra e o próprio comportamento humano. Desta organização surgem divisões conhecidas como Eras Geológicas (divisões na linha do tempo que narram os grandes eventos geológicos da história do planeta), Períodos Históricos (método cronológico usado para contar e separar o tempo histórico da humanidade), Eras Astrológicas (baseadas no fenômeno astronômico chamado precessão dos equinócios, que seria um período de aproximadamente 2.160 anos em cada signo do zodíaco. Ao completar a roda zodiacal ter-se-ia o Grande Ano, a cada 25.920 anos, aproximadamente), Aeon (para os thelemitas, seriam períodos de tempo com suas próprias formas de expressão mágica e religiosa; e para os gnósticos, cada uma das entidades emanadas de Deus, que frequentemente estariam envolvidas na criação da humanidade, conferindo espírito aos seres humanos), Zeitgeist (o “espírito da época” seria o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo). Até mesmo a ira de Deus tem uma medida, a chamada “medida da iniquidade”, que seria um período de tempo ou quantidade de pecados que um povo (ou um ser humano específico) poderia cometer para ter direito ao perdão divino. “...porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.” (Gn 15.16).

Muitas destas divisões temporais influenciam o modo de pensamento e as tendências mentais da humanidade. Creio que muitos dos nossos interesses se relacionam com o meio em que estamos inseridos (social, cultural, econômico, histórico, etc). Nossa realidade acontece em uma determinada época, onde a coletividade vive e se expressa de uma maneira condizente com ela.

Os homens que nascem num mundo modificado por uma ideia carregam em si o traço, a impressão dessa ideia e é assim que o verbo se faz carne. 
(Eliphas Levi)

Além disso, creio que só criamos, pois também somos espectadores. A arte que consumimos transforma-se em insumo para nossas próprias criações. Eu só escrevo, porque antes de escritora, sou leitora.

De acordo com Eliphas Levi: "A alma aspira e respira exatamente como o corpo. Aspira o que crê ser conveniente à sua felicidade e respira ideias que resultam das suas sensações íntimas."

 

Le Théâtre Rêvé - Anne Bachelier 


Falemos agora sobre este lugar desacreditado por muitos e defendido por tantos outros... A morada das ideias, dos sonhos e da inspiração.

Existem vários nomes para esse espaço entre os mundos. Jung chamou-o tanto de inconsciente coletivo e psique objetiva quanto de inconsciente psicóide, referindo-se a uma camada mais indescritível do primeiro. Ele considerava este último um lugar em que os universos biológico e psicológico compartilhavam as mesmas nascentes, em que a biologia e a psicologia talvez se pudessem fundir, influenciando-se mutuamente.

O inconsciente (junguiano) seria a raiz do consciente e estaria dividido entre um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo, no qual as experiências primitivas da humanidade encontraram a sua sedimentação. Os elementos estruturais do inconsciente seriam os arquétipos (formas ideais; estruturas psíquicas universais, inatas ou herdadas, como uma espécie de consciência coletiva). As imagens do inconsciente (através de símbolos*) se manifestariam nos sonhos, nos mitos, nas fábulas (ou contos de fadas) e, também, na arte.

*Símbolo: O símbolo é um sinal visível de uma realidade invisível. Sintetiza, numa expressão sensível, todas as influências do inconsciente e da consciência, bem como das forças instintivas e espirituais. É próprio do símbolo o permanecer indefinidamente sugestivo: nele, cada um vê aquilo que sua potência visual lhe permite perceber. Faltando intuição, nada de profundo é percebido. 

Isso explicaria porque estas linguagens são compreensíveis à grande maioria dos seres humanos. Explicaria, também, o fato da arte emocionar àqueles que sabem decifrar seus símbolos.

 

Arte de Freydoon Rousseli 

Se pensarmos que todas as coisas possuem alma, os mitos/sonhos/fábulas/arte podem ser vistos como elementos vivos e neles nada aconteceria em função de leis impessoais. Por isso, o ser humano vivencia essas realidades e se familiariza com elas. Sejam quais forem os sistemas de interpretação, essas linguagens ajudam a perceber uma dimensão da realidade humana e trazem à tona a função simbolizadora da imaginação.

A imaginação (a qual os cabalistas chamavam de o diáfano ou o translúcido) é algo assim como os olhos da alma, sendo nela onde se desenham e se conservam as formas; é por ela também que vemos os reflexos do mundo invisível e deste modo, enfim, é o espelho das visões e o aparelho da vida mágica.

Na Irlanda há o conceito de “Sid” (outro mundo), lugar onde haveria uma ruptura simbólica do tempo humano. Seria uma aparição do eu, de um eu desconhecido, que surge do inconsciente, que inspira um medo quase pânico e que as pessoas reprimem nas trevas. A alma do outro mundo seria a realidade renegada, temida, rejeitada.

 

Der Astralmensch (The Astral Man) - Sascha Schneider 

Eliphas Levi e Papus, entre outros, discorreram sobre a “luz astral” (ou a alma do mundo), que seria algo como um arquivo vivo ou a memória do universo.

A realização da palavra é o verbo propriamente dito. Um pensamento se realiza ao se converter em palavra; esta se realiza pelos signos, sons e pelas figuras dos signos: este é o primeiro grau da realização. Depois se imprime na luz astral por meio dos signos da escritura ou da palavra; influencia outros espíritos ao se refletir neles; se refrata atravessando o diáfano dos outros homens e adquire formas e proporções novas, traduzindo-se posteriormente em atos que podem modificar a sociedade e o mundo, que é o último grau de realização.
(Levi)

Para a psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés, desde a memória humana mais remota, esse lugar, quer o chamemos de Nod, de lar dos Seres de Névoa, de fissura entre os mundos, de inconsciente coletivo, de luz astral, entre outros, é o lugar onde ocorrem aparições, milagres, imaginação, inspiração e curas de todas as naturezas.

Eu creio num plano astral onde nosso corpo sutil pode acessar informações e trazê-las para a consciência. A meu ver, seria uma boa forma de pensar o fato de diversas religiões originárias possuírem sistemas semelhantes de crenças, sem nunca terem tido contato com outras culturas. Explicaria, também, o fato de artistas que não se conhecem criarem obras muito parecidas, uma vez que fizeram uso de símbolos com potências ancestrais, que são inerentes a toda a humanidade.

E você, no que acredita?

Uma coisa interessante sobre a inspiração é que de nada adianta sermos seres inspirados, se esta inspiração não for canalizada e materializada.

Como nos instruiu Marina Colasanti, na fábula “Uma Ideia Toda Azul”, ideia não é para ficar adormecida, mas para ser realizada, sob pena de se perder.

E o tio Levi, quando profetizou: Toda intenção que não se manifesta através de atos é uma intenção vã e a palavra que a expressa é uma palavra ociosa. A vida é demonstrada pela ação e é também a ação que comprova e demonstra a vontade. É por isto que se disse nos livros simbólicos e sagrados que os homens serão julgados não por seus pensamentos e por suas ideias, mas sim por suas obras. Para ser é necessário fazer.

...

No dia 17/08, Yuri Seima, Honora Haeresis e eu nos encontramos online para debater sobre todas estas questões. Yuri trouxe um pouco do seu conhecimento com ocultismo e Honora contribuiu com diversos conceitos interessantes abordados na Gestalt terapia. Você pode conferir esta live no IGTV do meu perfil do Instagram.

Para quem perguntou sobre nossas inspirações pessoais, segue:

- Yuri: H.P Lovecraft, Clive Barker, Todd McFarlane, HR Giger, Neil Gaiman, Olivier de Sagazan, etc. No dia a dia me inspiro muito seguindo vários artistas nas redes sociais que trabalham com os mesmos temas que eu.

- Honora: Na literatura e poesia: Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Clarice Lispector, Nietzsche, Schopenhauer, Cioran, Florbela Espanca, Goethe, Lord Byron, Dostoiévski, Ivanes Freitas, Jarid Arraes, entre muitos outros. Nas artes plásticas e visuais: Modigliani, Portinari, Anita Mafaltti, Vik Muniz, Olivier de Sagazan, entre muitos outros. Na dança e performance: Maria Pages, Kazuo Ohno, Marina Abramović e Ulay, Martha Graham, Pina Bausch. As referências do Tribal Fusion são inúmeras, dentre elas: Zoe Jakes, Kami Liddle, Rachel Brice, Ethel , Saba Khandroma, Hölle Carogne, Gilmara Cruz, Joline Andrade, Alinne Madelon, Kilma Farias... Na dança do ventre com certeza a Saida.

- Hölle: Na escrita: Florbela Espanca, Rimbaud, Baudelaire, Platão, Nietzsche, Anaïs Nin, Marion Zimmer Bradley, Hilda Hilst, Marina Colasanti, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo, Manuel de Barros, entre outros. Na dança: Pina Bausch, Isadora Duncan, Martha Graham, Bob Fosse, Tatsumi Hijikata, Kazuo Ohno, Ivana Caffaratti, Gaia Scuderi, Idhun, Violet Scrap, Grace Constantine, Illan Riviere, Piny Orchidaceae, Lelyana Stanishevskaya, entre outros. Energeticamente/ideologicamente (na dança): Saba Khandroma e Aepril Schaile. Outros artistas: Austin Osman Spare, Wim Mertens, Diamanda Galás, Tao Sigulda, Salvador Dalí, Anne Bachelier, Saturno Butto, Jam Saudeck, Frida Khalo, Natalia Drepina, Denis Forkas, Lupe Vasconcelos, Yuri Seima, Agnieszka Osipa, Treha Sektori, Rosa Crvx, Nicole Mahlimae, Leo Carreño, Daria Endresen, Anna-Varney Cantodea, Olivier de Sagazan, entre outros.

Para finalizar, gostaria de dizer o quanto é importante e fundamental falarmos sobre quem nos inspira. Dar crédito a estas pessoas por plantarem algo dentro de nós. Não deixe suas inspirações na sombra. Fale sobre elas, agradeça-as!

E então... Quem te inspira?

Obrigada a todos que leram até aqui!

Até o próximo assunto nebuloso!

93,93/93

 

Bibliografia:

- Dicionário de Símbolos, O Alfabeto Da Linguagem Interior – Maria Cecília Amaral de Rosa

- Dicionário de Simbologia – Manfred Lurker

- Dicionário de Símbolos – Jean Chevalier e Alain Gheerbrant

- Os Símbolos Místicos – Brenda Mallon

- O Tempo em Platão e Aristóteles – Rémi Brague

- Mulheres Que Correm Com Os Lobos – Clarissa Pinkola Estés

- Dogma e Ritual de Alta Magia – Eliphas Levi

- A Bíblia Sagrada – Deus (rsrsrs)

- Wikipedia

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Venenum Saltationes

Hölle Carogne (Porto Alegre-RS) é  a alma por detrás do humano, do rígido. É curiosa, entusiasta e selvagem. Uma admiradora da arte, da dança, da literatura e da música.O "esquisito" a seduz. Seus poemas e seus movimentos estão impregnados de ideologias, de crenças. Compassos pouco convencionais, cheios de misticismo, de oposição, de agressividade.Ocultismo, caos e luxúria sendo mesclados às suas criações e retratados de forma crua, orgânica, uterina.

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